"Não se conhece o homem por sua animação, mais pela quantidade de sofrimento verdadeiro que ele é capaz de suportar!..." (Charles Thomas Studd)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Batalha espiritual.

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BATALHA ESPIRITUAL
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BATALHA
ESPIRITUAL
Augustus Nicodemus Lopes
BATALHA ESPIRITUAL
3
Índice
Quatro Princípios Bíblicos para se Entender a Batalha Espiritual................................... 4
INTRODUÇÃO................................................................................................................ 4
A Necessidade de Base Bíblica ...................................................................................... 7
Quatro princípios fundamentais ...................................................................................... 9
1. Deus é soberano absoluto do seu universo............................................................. 9
2. As coisas de Deus só podem ser conhecidas pelas Escrituras............................. 14
3. O homem é um ser decaído e debaixo do justo juízo de Deus ............................. 19
4. Se alguém está em Cristo é uma nova criação ..................................................... 26
Conclusão ..................................................................................................................... 32
Notas............................................................................................................................ 34
BATALHA ESPIRITUAL
4
Quatro Princípios Bíblicos para se
Entender a Batalha Espiritual
Augustus Nicodemus Lopes
(Esse material encontra-se em fase de revisão e aparecerá em sua forma final
como um dos capítulos do livro "Neopentecostalismo" da Comissão Permanente
de Doutrina da Igreja Presbiteriana do Brasil)
Introdução
As igrejas históricas do mundo todo têm sido desafiadas nestas últimas
três décadas a dar respostas às ênfases de um movimento dentro das suas
fileiras que ficou conhecido como "movimento de ‘batalha espiritual’". O nome
em si já sugere do que se trata: é um movimento cuja ênfase maior é na luta
da Igreja de Cristo contra Satanás e seus demônios, conflito este de natureza
espiritual, quanto aos métodos, armas, estratégias e objetivos.
Esse crescente interesse em círculos evangélicos por Satanás, demônios,
espíritos malignos, e o misterioso mundo dos anjos, corresponde ao surto de
misticismo atual, um interesse crescente no mundo nos dias de hoje pelos
anjos maus e bons, e pelo oculto. Mas não somente no mundo, dentro da
própria igreja cristã assistimos o crescimento vertiginoso da busca pelo
miraculoso e sobrenatural, na esteira do neopentecostalismo. Por
neopentecostalismo quero dizer aqueles movimentos surgidos em décadas
recentes, que são desdobramentos do pentecostalismo clássico do início do
século, mas que abandonaram algumas de suas ênfases características e
adquiriram marcas próprias, como ênfase em revelações diretas, curas,
batalha espiritual, e particularmente uma maneira de encarar a realidade
espiritual.
Esse movimento é caracterizado por uma leitura das Escrituras e da
realidade sempre em termos da ação sobrenatural de Deus. Deus é percebido
somente em termos de sua ação extraordinária. Assim, para o neopentecostal
típico, Deus o guia na vida diária através de impulsos, sonhos, visões, palavras
proféticas, e dá soluções aos seus problemas sempre de forma miraculosa,
como libertações, livramentos, exorcismos e curas. A doutrina que caracteriza,
mais que qualquer outra, as igrejas evangélicas no Brasil hoje, é a crença em
milagres. É claro que não estou dizendo que crer em milagres seja errado. O
que estou dizendo é que, na hora em que a crença em milagres
contemporâneos e diários passa a ser a característica maior da igreja
evangélica, algo está errado.
A hermenêutica sobrenaturalista do neopentecostalismo representa um
desafio para a uma das doutrinas típicas da tradição reformada, que é a
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providência de Deus. Partindo das Escrituras, os reformados usam o termo
providência para se referir à ação de Deus, pelo seu Espírito, agindo no mundo
através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus propósitos. Esses
meios não são intervenções miraculosas ou extraordinárias de Deus na vida
humana, mas simplesmente meios naturais secundários. Os calvinistas
reconhecem que Deus intervém miraculosamente neste mundo, mas sempre
em regime de exceção. Normalmente, ele age através dos meios naturais.
O neopentecostalismo, por enfatizar a ação sobrenatural e miraculosa de
Deus no mundo (a qual não negamos, diga-se), acaba por negligenciar a
importância da operação do Espírito Santo através de meios secundários e
naturais. Essa negligência torna-se mais séria quando nos conscientizamos que
o Espírito normalmente trabalha através de meios secundários e naturais para
salvar os pecadores. Acredito não ser difícil de provar que a esmagadora
maioria dos cristãos foram salvos através de meios naturais – como o
testemunho de alguém, a leitura da Bíblia, a pregação da Palavra – e não
através de intervenções miraculosas e extraordinárias, como foi a conversão
de Paulo.
Como resultado do sobrenaturalismo neopentecostal, as igrejas
reformadas por ele afetadas tendem a considerar os meios naturais como
sendo espiritualmente inferiores. Um bom exemplo é a tendência de considerar
o tomar remédios como falta de fé por parte do crente adoentado. Um outro
resultado é a diminuição da pregação do Evangelho como meio de salvação
dos pecadores, e a ênfase na realização de como meio evangelístico. Assim, a
obra do Espírito na Igreja e no mundo através dos meios naturais secundários
é negligenciada, com graves e perniciosos efeitos nas vidas dos que abraçam a
cosmovisão neopentecostal.
As conseqüências desta maneira de ver a realidade espiritual são sérias
para a área do conflito da igreja contra as hostes das trevas, pois a concebe
apenas em termos do sobrenatural, negligenciando o ensino bíblico de que
Satanás procura atingir a Igreja de Cristo através da carne e do mundo –
meios que não são necessariamente sobrenaturais.
Conquanto devamos dar as boas vindas a todo e qualquer movimento na
Igreja que venha nos ajudar a melhor nos preparar para enfrentar os ataques
das hostes malignas contra a Igreja, este movimento polêmico tem trazido
algumas preocupações sérias a pastores, estudiosos e líderes evangélicos no
mundo todo, não somente das igrejas evangélicas históricas, como até mesmo
de igrejas pentecostais clássicas.(1) Mesmo organizações internacionais, como
o Comitê de Lausanne para Evangelização Mundial, têm expressado suas
preocupações com os ensinos deste movimento, numa declaração do seu
Grupo de Trabalho feita em 1993, em Londres.(2)
Existem várias razões para essa preocupação. Uma delas é que o
movimento, onde tem ganhado a adesão de pastores e comunidades, tem
produzido um tipo de cristianismo em que a atividade satânica se tornou o
centro e mesmo a razão de ser da existência destes ministérios e igrejas.
Nestes casos, embora geralmente as doutrinas fundamentais da fé cristã não
tenham sido negadas (há exceções), elas são, via de regra, relegadas a plano
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secundário, desaparecendo do ensino e da liturgia. O que resulta é um
cristianismo distorcido, deformado, onde doutrinas como a salvação pela fé
somente, mediante o sacrifício redentor, único e expiatório de Cristo. A
doutrina da pessoa de Cristo, sua mediação e ofícios, e doutrinas como a da
queda, da depravação do homem, da santificação progressiva mediante os
meios de graça, são negligenciadas. Não é que estas igrejas e os proponentes
do movimento neguem necessariamente estes pontos; mas certamente não
lhes dão a ênfase necessária e devidas, que recebem nas próprias Escrituras.
O fato é que o movimento de "batalha espiritual" tem produzido o
surgimento de novas igrejas (e mesmo denominações) cujo ministério principal
é a expulsão de demônios e a "libertação" de crentes e descrentes da opressão
demoníaca a todos os níveis (espiritual, moral e física, bem como geográfica,
estrutural e social). Mas não somente isto — as idéias e práticas difundidas
pelo movimento tem se infiltrado nas igrejas históricas, cativando muitos dos
seus pastores, oficiais e membros.
O objetivo desse capítulo é apresentar alguns princípios bíblicos pelos
quais os evangélicos em geral, e presbiterianos em particular, poderão orientar
sua compreensão acerca de tema tão atual e polêmico.(3)
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A Necessidade de Base Bíblica
A melhor maneira de abordarmos assuntos polêmicos é colocá-los dentro
de seus contextos maiores. Se tivermos a visão do todo, poderemos com mais
exatidão entender suas partes. Por exemplo, uma pessoa que tenta achar um
endereço numa cidade simplesmente procurando as placas com o nome das
ruas pode acabar desorientada e perdida. Se ela porém tiver um mapa, que
lhe dá uma visão mais ampla da área onde ela se encontra, e mostra as
ligações entre as ruas, poderá mais facilmente encontrar seu destino. Da
mesma forma, quando colocamos o tema do confronto da Igreja com as hostes
das trevas dentro de um contexto maior, e percebemos as ligações com outras
áreas teológicas, podemos melhor entendê-lo.
Em termos do conhecimento teológico global, o assunto não pertence a
uma área somente. Quando falamos da polêmica entre salvação pela fé e/ou
pelas obras, facilmente identificamos que o assunto pertence à área de
soteriologia, ou seja, o estudo da salvação, uma área da enciclopédia
teológica. Se tivermos uma boa compreensão dos princípios e fundamentos
que orientam a soteriologia, poderemos mais facilmente entender tudo o que
está envolvido nessa polêmica. Mas a luta entre a Igreja e Satanás não se
enquadra em uma área somente, muito embora a demonologia bíblica, que por
sua vez é um departamento da angelologia, (o estudo dos anjos bons e maus)
certamente seja a principal área afim. O fato é que os ensinos e práticas da
"batalha espiritual" levantam questões sérias relacionadas com diversas áreas
do nosso conhecimento de Deus.
Quando, por exemplo, alguns dos defensores do movimento falam de
Satanás como se fosse um poder independente, autônomo e livre para fazer o
mal neste mundo, está indiretamente entrando na área que trata dos decretos
de Deus e da sua maneira de governar o mundo. Ainda, quando alguns
revelam possuir informações extra bíblicas sobre o mundo invisível dos anjos e
demônios – como por exemplo, o nome de determinados demônios e os locais
geográficos onde supostamente habitam – está entrando na epistemologia, ou
teoria do conhecimento. Essa área trata do modo pelo qual conhecemos as
coisas ao nosso redor, inclusive o acesso humano ao conhecimento do mundo
espiritual invisível, onde habitam e atuam os seres espirituais como anjos e
demônios. Semelhantemente, quando todo tipo de mal que existe no mundo,
quer moral ou circunstancial (como doença, dor, desemprego, etc.) é atribuído
aos demônios, levanta-se a antiga discussão acerca da origem dos males e
sofrimentos neste mundo presente. E quando é dito que os cristãos podem ser
possuídos por um espírito maligno (ou ficar demonizados, para usar um termo
mais em voga), estamos de volta à soteriologia – ou seja, qual a situação dos
salvos diante dos ataques de demônios – e entramos também na cristologia,
indagando qual a relação entre a obra vitoriosa e consumada de Cristo e a
atividade satânica no presente.
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Quando procuramos entender os conceitos da "batalha espiritual" a partir
de princípios gerais que controlam as diversas áreas abrangidas pelo tema,
poderemos ter alguns trilhos sobre os quais poderemos conduzir o assunto. No
que se segue, procuro analisar quatro desses princípios que têm importância
fundamental para ele: a soberania de Deus, a suficiência as Escrituras, a
queda da raça humana e a suficiência da obra de Cristo. Acredito que se forem
compreendidos adequadamente pelos leitores, funcionarão como balizadores
seguros pelos quais poderão prosseguir com maior certeza no conflito diário
que enfrentamos contra as hostes espirituais da maldade.
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Quatro Princípios Fundamentais
1. Deus é soberano absoluto do seu universo
O título acima expressa um dos ensinamentos mais relevantes das
Escrituras para o tema desse ensaio. Um soberano é alguém que está
revestido da autoridade suprema, que governa com absoluto poderio, que
exerce um poder supremo sem restrição nem neutralização. Quando dizemos
que Deus é soberano, significa que ele tem poder ilimitado para fazer o que
quiser com o mundo e as criaturas que criou, e que nenhuma delas pode, ao
final, frustrar seus planos. Podemos fazer algumas afirmações quanto a essa
doutrina.
A soberania absoluta de Deus sobre sua criação percebe-se claramente
nas Escrituras. No Pentateuco Deus revela-se como o Criador do mundo visível
e invisível, e da raça humana. Ele é o Libertador dos seus e o Legislador que
soberanamente passa leis que refletem sua santidade e exigem obediência
plena de suas criaturas. Ele exerce total controle sobre a natureza que criou,
intervindo em suas leis naturais, suspendendo-as (milagres). Assim, em
contraste com os deuses das nações, ele é o supremo soberano do universo,
acima de todos os deuses, que os julga e castiga, bem como aos que os
adoram. Nos livros Históricos, lemos como Deus cumpre soberanamente suas
promessas feitas a Abraão de dar uma terra aos seus descendentes,
introduzindo-os e estabelecendo-os em Canaã, e ali mantendo-os até que os
expulsasse por causa da desobediência deles. Os Salmos e os Profetas
celebram a soberania de Deus sobre sua criação e sobre seu povo. É ele quem
reina acima das nações e de seus deuses falsos, quem controla o curso desse
mundo. Nele seu povo sempre pode confiar e depender.
O mesmo reconhecimento encontramos nas Escrituras do Novo
Testamento. Na plenitude dos tempos Deus envia soberanamente seu filho, e
dá testemunho dele através de milagres poderosos, ressuscitando-o de entre
os mortos. Esses eventos, bem como os que se seguiram na vida dos apóstolos
e da Igreja nascente, ocorreram como o cumprimento da vontade de Deus.
Esse ponto vemos claramente nos Evangelhos e no livro de Atos: a morte e a
ressurreição de Jesus (At 2.23), bem como a oposição contra a Igreja (At
4.27-29) são simplesmente o cumprimento da soberana vontade divina,
acontecendo como cumprimento das Escrituras. Para os apóstolos, "as
profecias feitas no Antigo Testamento governavam o decurso da história da
Igreja"(4). Assim, o derramamento do Espírito (2.17-21), a missão aos gentios
(13.47), a entrada dos gentios na Igreja (15.16-18), a rejeição de Cristo por
parte dos judeus (28.25-27) – todos esses eventos e outros mais são vistos
pelos autores do Novo Testamento como atos redentores de Deus na história.
No livro de Atos encontramos claramente o conceito de que a vida da Igreja foi
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dirigida por Deus. A cada etapa do progresso missionários, Deus intervém para
guiá-la, através da atuação do Espírito (At 13.2; 15.28; 16.16), anjos (At
5.19-20; 8.26; 27.23), profetas (At 11.28; 20.11-12), e às vezes o próprio
Senhor (At 18.9; 23.11). A presença dos sinais e prodígios realizados em nome
de Jesus através dos apóstolos e de pessoas associadas aos apóstolos (At
3.16; 14.3; 19.11) atestava que era o próprio Deus que levava avante a
história da Igreja (15.4).
A soberania de Deus é ensinada no conceito de Reino de Deus. Mas, é o
conceito bíblico do Reino de Deus que melhor expressa a soberania de Deus
sobre o universo que formou. Tal conceito está presente em toda a Bíblia e
mesmo estudiosos renomados têm insistido em que é o conceito central das
Escrituras, do qual se derivam todos os demais.(5) Para colocá-lo de maneira
simples e sucinta, significa o domínio supremo de Deus sobre suas criaturas,
mesmo as que se encontram em estado de rebelião aberta contra ele; embora
na época presente Deus permita que essa rebelião permaneça, já tem
determinado o dia em que será conquistada e quando então reinará tendo tudo
e todos sujeitos debaixo do domínio de seu Filho (1 Co 15.23-28). O domínio
de Deus se estende no presente sobre as ações e vidas de suas criaturas, sem
que isso represente uma intrusão na liberdade delas em escolher e decidir
moralmente. Ao final, porém, a vontade do Rei prevalecerá sobre todas elas,
sem que nenhuma delas possa acusá-lo de determinista.
A Igreja sempre reconheceu o ensino bíblico sobre esse ponto. Os
autores da Confissão de Fé de Westminster exprimiram o conceito da
soberania de Deus de forma muito adequada. Eles escreveram que existe
apenas um Deus vivo e verdadeiro, que é um espírito puríssimo, infinito em
seu ser e em seus atributos, invisível, imutável, amoroso, misericordioso,
gracioso, paciente, imenso, incompreensível, Todo-Poderoso, santíssimo, livre
e totalmente absoluto, fazendo todas as coisas de acordo com sua santíssima
vontade e de acordo com o seu querer justo e imutável (Capítulo 2, § 1). Eles
ainda acrescentaram que Deus possui em si mesmo toda vida, glória, bemaventurança,
e que é suficiente em si mesmo, e que não precisa de nenhuma
das criaturas que fez, que ele exerce o mais soberano domínio sobre elas, para
através delas, para elas e sobre elas, fazer o que lhe agradar. A ele é devido,
da parte de anjos e homens, ou qualquer outra criatura, a adoração, o serviço
e a obediência que ele assim requerer (Capítulo 2, § 2). Uma das evidências
bíblicas que citam é que foi do agrado desse Deus soberano escolher os que
quis para salvação, e destinar os rebeldes para o castigo eterno (Capítulo 3, §
7; cf. Mt 11.25,26; Rm 9.17,18,21,22; 2 Tm 2.19,20; Jd 4; 1 Pe 2.8).
A tradição reformada – seguindo o ensino de Agostinho – entende o
ensino bíblico sobre a soberania de Deus em termos absolutos. Agostinho
considerava que os planos de Deus não podiam ser obliterados, nem sua
vontade obstruída ao final. Calvino, similarmente, concebia a soberania de
Deus como o poder determinante do universo (ao mesmo tempo em que
insistia que a responsabilidade dos seres morais não era aniquilada). Veja, por
exemplo, o que ele escreveu nas Institutas, no capítulo "O Resumo da Vida
Cristã":
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Nós não somos de nós mesmos, nós somos de Deus. Para ele, então,
vivamos ou morramos. Nós somos de Deus. Para ele, então, dirijamos
cada parte de nossas vidas. Nós não somos de nós mesmos; então, até
onde possível, esqueçamo-nos de nós mesmos e das coisas que são
nossas. Nós somos de Deus; então, vivamos e morramos para ele (Rm
14.8) e deixemos a sua sabedoria presidir todas nossas ações.(6)
Não quero com isso dizer que outras linhas teológicas não reconheçam o
ensino bíblico sobre a soberania de Deus. Na verdade, creio que teólogos em
geral, de qualquer orientação doutrinária, estão prontos a reconhecer o ensino
bíblico sobre esse assunto. Apenas destaco que, na minha opinião, foram os
reformadores e os puritanos que mais coerentemente entenderam e
enfatizaram a soberania de Deus sem com isso detrair da responsabilidade das
criaturas moralmente responsáveis, como os homens e os anjos, bons e maus,
e Satanás, entre esses últimos.
O próprio Satanás está debaixo da soberania divina. Embora não esteja
muito claro na Bíblia, a Igreja cristã sempre entendeu que Satanás foi
originalmente um dos anjos criados por Deus, talvez um querubim de grande
beleza e poder, que desviou-se do seu estado original de pureza e motivado
pela vaidade e pela soberba, rebelou-se contra Deus, desejando ele mesmo
ocupar o lugar da divindade (Isaías 14 e Ezequiel 28). Punido por Deus com a
destruição eterna, o anjo rebelde tem entretanto a permissão divina para agir
por um tempo na humanidade, a qual, através de seu representante Adão,
acabou por seguir o mesmo caminho do querubim soberbo. Pela permissão
divina, Satanás e os demais anjos que aliciou dos exércitos celestiais,
cumprem nesse mundo propósitos misteriosos, que pertencem a Deus apenas.
Alguns deles transparecem das Escrituras, que é o de servir como teste para
os filhos de Deus e agente de punição contra os homens rebeldes.
O ensino bíblico é claro. Satanás, mesmo sendo um ser moral
responsável e retendo ainda poderes inerentes aos anjos, nada mais é que
uma das criaturas de Deus, e portanto, infinitamente inferior a ele em glória,
poder e domínio. Mesmo que a Bíblia fale do reino de Satanás e de seu
domínio nesse mundo (Ef 6.12; Lc 4.6; Jo 14.30) e advirta os crentes a que
estejam alertas contra suas ciladas (Ef 6.11; 1 Pe 5.8; Tg 4.7), jamais lhe
atribui um poder independente de Deus, ou liberdade plena para cumprir
planos próprios, ou capacidade para frustrar os desígnios do Senhor.
Assim, a Bíblia nos ensina que Satanás não pode atacar os filhos de Deus
sem a permissão dele. Foi somente assim que pode atacar o fiel Jó (Jó 1.6-12;
2.1-7), incitar Davi a contar o número dos israelitas (1 Cr 21.1 com 2 Sm
24.1) e peneirar Pedro e demais discípulos (Lc 22.31-32). Os crentes têm a
promessa divina de que ele só permitirá a tentação prosseguir até o limite
individual de cada um (1 Co 10.13), o que só faz sentido se o Senhor tiver
pleno controle sobre a atividade satânica. Os autores bíblicos não viam esse
controle do Deus santo e puro sobre a atividade satânica como uma insinuação
potencial de que Deus era o autor do mal ou mesmo pactuasse com ele. Num
BATALHA ESPIRITUAL
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universo em estado de rebelião contra o seu santo e soberano criador, onde
habitavam seres morais responsáveis, decaídos espiritual e moralmente, era
perfeitamente concebível que Deus, em seu plano de redenção, interagisse
com homens e anjos decaídos, usando-os conforme seu querer soberano.
Em nossos dias, percebe-se claramente que a doutrina da soberania de
Deus, como entendida pelos reformados, não é muito popular. Algumas
dificuldades têm sido levantadas contra ela.
Homens e anjos podem frustrar os planos de Deus. Essa estranha idéia
predomina em alguns arraiais evangélicos. Um exemplo é o artigo escrito por
Marrs, onde afirma que as pessoas estão sempre arruinando o bom plano de
Deus, e que Deus sempre está pronto para começar outra vez.(7) Estou bem
consciente de que a doutrina de que há um Deus que reina supremo não é
recebida favoravelmente entre os incrédulos. O salmista menciona que os
príncipes desse mundo se uniram para tomar conselho contra Deus e seu
Ungido (Sl 2.2-3). Nietzsche anunciou a morte de Deus, e os secularistas e
ateus resolveram ignorar Deus como uma realidade. Essa resistência está
presente até mesmo entre cristãos. Para alguns deles, Deus é um ser divino
afável, como eles mesmos. Devemos reconhecer que até mesmo os crentes
mais fiéis lutam com o conceito da plena soberania de Deus quando estão
passando por sofrimentos. Contudo, o conceito bíblico da soberania do Senhor
Deus permanece claramente expressa nas Escrituras.
Não há uma determinação última de Deus quanto ao universo. Teólogos
famosos como Clark Pinnock têm defendido em nossos dias uma compreensão
mais "moderada" da soberania de Deus do que a compreensão de Agostinho e
de Calvino. Pinnock afirma que um controle soberano da parte de Deus nega a
habilidade e a liberdade das pessoas em escolher obedecer a Deus ou voltar-se
contra seu propósito. Ele sugere que Deus criou o mundo com uma certa
medida de autodeterminação, e que governa um mundo livre e dinâmico, onde
não há nada determinado de forma fixa ou definitiva. A soberania de Deus, ele
sugere, é algo aberto e flexível.(8) Pinnock tem recebido muitas críticas de
teólogos reformados hoje. Sua idéia de soberania de Deus não faz justiça ao
ensino da Bíblia acerca do reino de Deus nesse mundo.
A soberania de Deus o torna autor do pecado e do mal. Muitas pessoas
não conseguem entender como Deus pode ser soberano e ao mesmo tempo
permitir que o mal impere. James Long, preocupado com essa questão,
escreveu:
Eu me importo com paradoxos. Deus reina. O mal também parece reinar.
Eu quero ver como as Escrituras relacionam os dois. Quase 20% dos 6
bilhões de pessoas desse planeta vivem em absoluta pobreza e
sofrimento. A fé cristã deve ter uma boa explicação para isso, se é que
vai fazer sentido para eles.(9)
Sem querer fazer de Deus o autor do mal, e sem querer menosprezar o
sofrimento desses milhões de pessoas, ouso dizer que a Bíblia tem, de fato,
uma solução para esse problema. Possivelmente, a melhor maneira de
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entender como os autores bíblicos – em especial do Novo Testamento –
abordaram esse ponto, é tomarmos conhecimento do que eles ensinaram
acerca das duas eras.
Enquanto que os gregos tinha uma idéia da história como se movendo
em círculos, uma repetição sem fim dos eventos — e portanto, algo sem
sentido, sem controle, sujeito ao acaso e ao capricho dos deuses — os Judeus
tinham um conceito linear da história. A história, para eles, se dividia em duas
partes, o olam hazé, a era presente, em que Israel estava sofrendo debaixo do
domínio de seus inimigos, e o olam habá, a era vindoura, o mundo por vir,
quando Israel seria libertado pelo Messias de seus inimigos, se tornaria o
centro do mundo, e Deus seria adorado e reconhecido por todas as nações
pagãs. Esta nova era seria introduzida pelo Messias, quando viesse em glória e
poder, para destruir os opressores do povo de Deus.
Segundo o Novo Testamento, vivemos hoje no período em que as duas
eras se sobrepõem. A coexistência das duas eras traz tensões que o Novo
Testamento expõe de forma clara: Cristo já reina, mas ainda não liquidou
literalmente todos os seus inimigos, como Satanás e a morte (1 Co 15.20-28;
Hb 2.8). O Reino de Deus já está entre nós, mas ainda temos de orar "venha o
Teu Reino". Já estamos salvos da condenação do pecado, mas ainda não da
sua presença e da morte que ele acarreta. Já temos as primícias do Espírito, já
experimentamos os poderes do mundo vindouro, mas ainda não em sua
plenitude (1 Co 13.9-13). Já estamos ressuscitados com Cristo, mas ainda não
fisicamente. É à luz desta tensão que podemos entender que o diabo já foi
vencido, despojado, limitado, e amarrado, mas ainda não aniquilado (cf. 1 Co
15.24).(10)
Procuremos entender claramente este ponto. Nos Evangelhos Satanás é
representado como sendo um inimigo vencido. Os demônios são expulsos
inexoravelmente. Eles se aproximam de Jesus, não como negociadores em pé
de igualdade, mas como suplicantes (Mc 1.23-28; 5.1-20). O Senhor Jesus
declara que Satanás está amarrado (Mc 3.27; Mt 12.29; Lc 11.21-22). Por
outro lado, a destruição final de Satanás é vista como ainda no futuro (Mt
25.41). Esta tensão faz parte do ensino de Jesus acerca do Reino de Deus, que
já é presente, mas ainda vindouro.(11)
Temos que manter os dois pontos desta tensão em perfeito equilíbrio. O
problema com muitos defensores da "batalha espiritual" é que não dão ênfase
suficiente no aspecto já realizado da obra de Cristo, da sua vitória sobre
Satanás. Igualmente perigosa é a falta de ênfase no "ainda não" da tensão.
O reconhecimento da soberania de Deus tem profundas implicações na
vida do cristão. Em meio às dificuldades, provações, sofrimento e adversidades
da época presente, ele encontrará profundo conforto em confiar no Deus que
está em perfeito controle da situação, e que a seu tempo e ao seu modo
haverá de prover o que for necessário para o bem de seu filho. A Bíblia está
repleta de exemplos de heróis e heroínas da fé que repetidamente afirmaram
sua confiança no poder de Deus para fazer tudo certo. Segundo Jay Adams, "a
soberania de Deus é a verdade última e definitiva que satisfaz as necessidades
humanas".
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Quando essa doutrina não é corretamente entendida e aplicada, duas
conseqüências igualmente perniciosas se seguem. Uma é a frustração em vez
de resignação humilde. Os que aplicam a doutrina da soberania de Deus
inconsistentemente e de forma superficial acabam caindo no "louvar a Deus
apesar de tudo…" Em vez de uma submissão voluntária e paciente à vontade
do soberano e amoroso Senhor do universo desenvolvem um espírito de
rebeldia e ingratidão. E a outra tendência é esquecer a responsabilidade
pessoal. Essa última tendência ataca especialmente os calvinistas.(12)
Mas o entendimento correto da soberania de Deus pode trazer ao aflito e
deprimido muita paz e esperança, pois lhe assegura que existe ordem e
propósito para todas as coisas.(13) Um bom exemplo disso é o famoso batista
calvinista Charles Spurgeon. Ele padeceu durante toda sua vida no ministério
de gota e artrite, e a profunda depressão causada por essas doenças. Segundo
John Piper, o segredo de sua perseverança foi entender a depressão como
parte do plano de Deus para sua vida. Sua confiança inabalável na soberania
divina evitou que ficasse amargurado com Deus, e habilitou-o a perceber que
Deus estava usando o sofrimento para derramar ainda mais abundantemente o
poder de Cristo através de seu ministério, e prepará-lo para ser ainda mais
frutífero.(14)
Quando as pessoas perdem a soberania de Deus de vista, acabam por
exagerar os poderes de Satanás e a sua liberdade para fustigar e afligir os
crentes. Acabam por perder a paz, a alegria e a liberdade para servir ao
Senhor livremente. Portanto, reconhecer que Deus é soberano absoluto do
universo que criou, nos permite entender o ensino bíblico sobre a batalha
espiritual da perspectiva correta.
2. As coisas de Deus só podem ser conhecidas pelas Escrituras
Esse segundo ponto é de importância crucial para nosso entendimento da
batalha espiritual. Ele trata da suficiência das Escrituras quanto ao
conhecimento que precisamos ter acerca de Deus, da sua vontade, suas
promessas, e do misterioso mundo celestial, onde invisivelmente se
movimentam os anjos e os demônios. Há dois aspectos que precisamos
destacar aqui.
A exclusividade da Escritura. A Bíblia é a única fonte adequada e
autorizada por Deus pela qual obter informações acerca das coisas espirituais e
que pertencem à salvação. Portanto, ela exclui qualquer outra fonte. Muito
embora Deus se revele através da sua imagem em nós (consciência, Rm 2.14-
15) e das coisas criadas (Rm 1.19-20), entretanto é através de sua revelação
especial nas Escrituras que nos faz saber acerca do mundo invisível e espiritual
que nos cerca. Assim, muito embora possamos depreender alguma coisa
acerca de Deus pelo conhecimento de nós mesmos e do mundo criado, é
exclusivamente nas Escrituras que encontraremos a revelação clara e plena de
Deus para a humanidade.
A suficiência da Escritura. A Bíblia traz todo o conhecimento que
precisamos ter nesse mundo, para servirmos a Deus de forma agradável a ele,
e para vivermos alegres e satisfeitos no mundo presente. Mesmo não sendo
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uma revelação exaustiva de Deus e do reino celestial, a Escritura entretanto é
suficiente naquilo que nos informa a esse respeito.
Aplicando ao tema do nosso ensaio, isso implica duas coisas:
1) A única fonte autorizada que temos para conhecer o misterioso mundo
angélico onde se movem anjos e demônios é a Bíblia. Mesmo que existam
muitos conceitos e idéias acerca dos demônios, advindas da superstição
popular, da crendice e de experiências pelas quais as pessoas passam, é
somente nas Escrituras que encontramos conhecimento seguro acerca de
Satanás e de sua atividade nesse mundo. Ela é singular e exclusiva.
2) A Bíblia contém tudo o que Deus desejava que conhecêssemos a
respeito de Satanás. O ensino que ela nos oferece sobre os demônios e suas
atividades é suficiente para que possamos estar sempre prontos para resistir
às suas investidas e para ajudar as pessoas que se encontram cativas por eles.
Ou seja, tudo que precisamos saber para travarmos uma guerra espiritual
contra as hostes espirituais da maldade está revelado nas páginas da
Escritura, e isso inclui conhecimento das ciladas astutas do diabo e a maneira
correta de procedermos diante delas. A Bíblia é nosso manual de combate
espiritual. Ela nos revela o caráter de nosso inimigo, suas intenções e
artimanhas, e de que modo podemos ficar firmes contra suas ciladas.
Assim, os estudiosos costumavam escrever "demonologias bíblicas" que
nada mais eram que uma sistematização do ensino das Escrituras acerca de
Satanás, seus anjos, e sua atividade nesse mundo.(15) Os puritanos, por
exemplo, escreveram muitas obras acerca do conflito entre os cristãos e o
diabo, que no geral sempre eram baseadas no que a Bíblia dizia sobre os
demônios e suas atividades.(16) Contudo, em nossos dias, assistimos com
perplexidade o crescimento espantoso de uma demonologia que se utiliza de
outras fontes de conhecimento acerca do reino das trevas além das Escrituras,
ao ponto de afinal contradizerem o ensino da mesma, ou de a
complementarem. Tanto a exclusividade quanto a singularidade da Escritura
nesses assuntos foram deixados para trás. O resultado tem sido um ensino
acerca de batalha espiritual e de métodos de evangelização bem distorcido e
diferente daquele ensinado pelas Escrituras. Em geral são usadas quatro fontes
de onde se extraem conhecimento extrabíblico sobre a atividade demoníaca.
Experiências pessoais. Alguns exemplos deverão bastar para que
possamos entender o que estou dizendo. Uma das mais sérias deficiências do
livro "A Igreja e a Batalha Espiritual", escrito por Neuza Itioka, diz respeito às
suas fontes. É surpreendente encontrar nas notas bibliográficas fontes como
"fatos constatados e verificados nas ministrações pessoais", depoimentos
pessoais, e testemunhos de ex-pais de santos. É destas últimas "fontes" que a
autora tira o fundamento para grande parte do seu livro. Por exemplo, a sua
convicção de que crentes verdadeiros podem ficar endemoninhados baseia-se,
não em exegese das Escrituras, mas na narrativa de várias experiências que
teve.(17) Itioka freqüentemente menciona experiências pessoais para provar
suas convicções. Ela afirma, com base na sua experiência de aconselhamento,
que certos demônios "adquirem" o direito de se sentarem no pescoço das
pessoas. Com base em testemunhos, ela afirma que as orações da Igreja
BATALHA ESPIRITUAL
16
diminuem o índice de criminalidade, roubo e violência, que as entidades de
uma rua podem ser atadas, etc. Uma de suas crenças mais curiosas, a de que
determinadas igrejas tem entidades malignas que se alimentam dos pecados
não resolvidos da comunidade e seus pastores, é defendida principalmente
com base em vários testemunhos. O que é ainda mais preocupante, Itioka faz
várias especulações sobre os demônios que dominam o Brasil baseada na
doutrina da Umbanda sobre estas entidades.(18)
Um outro exemplo é o artigo seminal de Peter Wagner sobre "Espíritos
Territoriais e Missões Mundiais" publicado em 1989.(19) Neste artigo, Wagner
admite que seu conhecimento sobre "espíritos territoriais" baseia-se
principalmente na sabedoria popular sobre o assunto.(20) Mas não pára ai. Ele
tenta um cálculo do número de demônios que existem baseado nas
informações de um ex-pai de santo da Nigéria, a quem Satanás teria
designado autoridade sobre um determinado número de demônios, que por
sua vez tinham controle sobre outro número.(21) Wagner defende a tese de
"casas mal assombradas" com base na experiência de missionários em Serra
Leoa.(22) A maior parte do artigo é empregado por Wagner para amontoar
experiências após experiências de campos missionários, que supostamente
provam a existência de demônios que são autoridades locais.(23) Wakely
observa que as experiências citadas por Wagner para defender a existência e
atuação de "espíritos territoriais" são muito limitadas e cuidadosamente
selecionadas.(24) Ele mostra, por exemplo, que a maioria das ilustrações que
Wagner usa em seu livro Warfare Prayer são tiradas da Argentina,
especialmente do ministério do evangelista argentino Carlos Annacondia, que
se utiliza das tática da "batalha espiritual". Wakely nota, porém, que Wagner
não menciona os casos em que estes métodos foram empregados sem
qualquer resultado, e nem os casos em que houve conversões em massa,
implantação de novas igrejas, e crescimento genuíno de igrejas sem que estes
métodos tivessem sido utilizados. Por deixar de mencionar que outras igrejas e
missões, que não a de Annacondia, estão tendo o mesmo resultado, Wagner
deixa de fornecer uma informação importante para que o leitor julgue os
métodos de Annacondia dentro do contexto argentino global.(25)
Revelações dos próprios demônios. A uma certa altura do seu artigo já
mencionado, Wagner menciona seis potestades mundiais que estão
imediatamente abaixo de Satanás na hierarquia satânica, cujos nomes são
Damião, Asmodeo, Menguelesh, Arios, Beelezebub, e Nosferatus. Estes
demônios e seus nomes, segundo Wagner, foram descobertos por Rita
Cabezas, que fez pesquisas extensas sobre a hierarquia satânica, usando
métodos que Wagner prefere não citar, mas que estão relacionados com o
ministério de psicologia e libertação de Cabezas, e com revelações divinas que
ela recebeu através de "palavras de conhecimento".(26) Não é difícil, para
quem lê as obras de Rita Cabezas, perceber qual o método que ela usa para
"descobrir" os mistérios da hierarquia satânica. Em seu último livro
(Desmascarado [São Paulo: Renascer, 1996]) Cabezas narra longos diálogos
que teve com demônios (falando através de pessoas endemoninhadas), os
quais não somente lhe revelaram seus nomes, como também lhe deram
BATALHA ESPIRITUAL
17
informações sobre outros demônios. Ela afirma que não é correto basear sua
teologia no que demônios dizem, mas acrescenta "...tenho a impressão que
aquele demônio dizia a verdade..." (p.216). Esse é apenas um exemplo. Nos
ensinos e práticas do movimento há muitas outras informações sobre os
demônios adquiridas pelo mesmo método.
Pesquisas psicológicas. Uma outra fonte extra-bíblica utilizada para se
obter conhecimento sobre o mundo espiritual são as pesquisas científicas. Mais
conhecimento sobre os sintomas da possessão demoníaca em contraste a
distúrbios mentais tem sido buscado através desse método. Estudiosos na área
de psicologia pastoral têm publicado relatórios onde procuram distinguir a
possessão demoníaca de doenças mentais pela observação e análise em seus
consultórios médicos.(27) A Bíblia narra diversos casos de possessão
demoníaca mas nos oferece pouca informação acerca dos seus sintomas. No
geral, os autores bíblicos não estão interessados na psicologia desses casos, e
os narram apenas do ponto de vista teológico, para mostrar o poder libertador
de Deus através de Cristo, e sua soberania sobre o reino das trevas.
Devemos obter toda a ajuda que pudermos para diagnosticar as
verdadeiras causas do sofrimento das pessoas. Nesse sentido, pesquisas assim
são bem-vindas. Mas, não é fácil distinguir entre possessão demoníaca e
distúrbios mentais. O Senhor Jesus e os apóstolos não tinham qualquer
dificuldade em saber quem era o que, mas gozavam de uma posição especial
que não nos parece ser a mesma dos cristãos em geral. Muito embora os
cristãos tenham discernimento espiritual, é patente que muitos erros e abusos
têm ocorrido nessa área, por parte de pastores, conselheiros e obreiros em
geral, especialmente nos chamados "ministérios de libertação". Num recente
artigo acerca do tratamento dos distúrbios da "múltipla personalidade" (um
estado psiquiátrico doentio em que as pessoas apresentam várias diferentes
personalidades), Christopher Rosik adverte que os pastores devem ter cuidado
para não diagnosticar DMP (distúrbios de múltipla personalidade) como sendo
possessão demoníaca. Usar exorcismo num paciente de DMP é uma atitude
inaceitável, e muitos terapeutas a consideram como sendo extremamente
prejudicial ao paciente.(28)
A necessidade de cautela fica ainda mais patente quando descobrimos,
para nosso desânimo, que os pesquisadores nessa área não conseguem chegar
a um acordo quanto aos sintomas que claramente distinguem possessão
demoníaca de desordens mentais. Alguns estudiosos, como Isaacs, afirmam
que a perda do auto controle, ouvir vozes ou ter visões, a presença de outras
personalidades dentro da pessoa, rejeição de itens religiosos, flutuações entre
personalidades, comportamento suicida e destrutivo, ocorrências paranormais
ou parapsicológicas, são sintomas claros de possessão demoníaca.(29)
Geralmente apontam para abuso sexual na infância como sendo uma das
portas de entrada dos demônios. Rosik, por outro lado, identifica um passado
de abuso sexual, ouvir vozes dentro da cabeça, comportamento anormal do
qual o paciente não se lembra, tratamentos anteriores que não funcionaram,
comportamento auto destrutivo, depressão e dor de cabeça severa, como
sintomas de DMP. Afirma ainda que o doente típico de DMP pode ter até
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18
mesmo 14 personalidades distintas.(30) Não é meu objetivo nessa parte do
estudo entrar no assunto da possessão demoníaca, apenas quero mostrar que
andamos em terreno escorregadio quando tentamos obter conhecimento
acerca do mundo espiritual usando outras fontes que não a revelação divina.
Conceitos pagãos sobre demônios. Muita coisa ensinada pela "batalha
espiritual" assemelha-se à sabedoria pagã sobre os espíritos maus, como os
conceitos de "casa mau assombrada", quebra de maldições, etc. Gary
Greenwald afirma num artigo que é possível que espíritos malignos sejam
transferidos para crentes de 6 maneiras: viver numa cidade onde os espíritos
dominantes seduzem os crentes; viver em associação com descrentes; assistir
fitas de cinema ou vídeo que expõem pornografia e violência; transferência de
espíritos de antepassados ímpios; imposição de mãos por parte de pessoas
erradas; líderes espirituais que não são realmente homens de Deus.(31)
Podemos concordar que algumas dessas coisas mencionadas acima são
perniciosas para o crente e que ele deve evitá-las. Mas daí a aceitarmos a idéia
de que elas transferem maus espíritos aos crentes, vai uma grande distância.
Essa conclusão não é corretamente inferida das Escrituras, muito embora o
autor tente fazer referência a algumas passagens que julga que provam seu
ponto. O conceito de transferência de espíritos malignos para crentes parece
muito mais um conceito pagão do que bíblico. Soa como o conceito de "mau
olhado" da umbanda.(32)
Já outro autor, escrevendo sobre como uma família crente deve
consagrar ao Senhor a casa onde moram, defende que pode haver demônios
morando nela, se os moradores anteriores foram ímpios, e recomenda que os
crentes façam uma operação de limpeza, removendo todos os traços de
pecado, e expulsando os demônios daquele lugar. O mesmo deve ser feito em
quartos de hotéis, e escritórios.(33) Evidentemente todos os cristãos desejam
morar num lugar onde Deus seja o Senhor, mas as Escrituras não nos ensinam
a fazer rituais de purificação de casas ou outros locais para que isso ocorra.
Deus habita em nós, e se habitamos numa casa, nossa presença santifica
aquele local. A idéia parece ter sido importada das religiões pagãs,
especialmente da umbanda e do baixo espiritismo.
Os perigos que correm os cristãos que adotam uma demonologia ou uma
visão de batalha espiritual que vai além dos padrões da Palavra de Deus são
devastadores. Via de regra, os que têm ido além das Escrituras acabam caindo
numa demonologia semi-pagã. Defensores dessa nova teologia mesmo
apresentando as vezes bom material bíblico são tendentes a especulações
fantásticas e imaginações espetaculares. Os que vêem a dor, o sofrimento, as
doenças, a depressão, o desemprego, os conflitos pessoais e o pecado —
enfim, toda a miséria que existe no mundo ao seu redor — sempre em termos
de batalha espiritual, correm diversos riscos quanto à sua fé. Enumero em
seguida três deles:
Falsa compreensão. Quando aceitamos a idéia de que vivemos num
mundo onde todo mal se origina na atuação direta de Satanás ou alguns de
seus demônios, perdemos de perspectiva o ensino bíblico de que somos
responsáveis pelos nossos pecados e pelas conseqüências dos mesmos, que
BATALHA ESPIRITUAL
19
geralmente nos trazem dor e sofrimento. E podemos até mesmo começar a
questionar se a disciplina espiritual é de algum valor para quebrarmos o poder
dos hábitos pecaminosos em nossas vidas, já que acreditamos que estes se
resolvem pela expulsão de entidades espirituais responsáveis pelos mesmos.
Temor doentio. Pessoas que percebem a vida cristã exclusivamente em
termos de batalha espiritual, logo começam a ver conexões sinistras e
macabras entre os eventos do dia a dia e a atividades de demônios, o que
pode levá-las ao pânico ou a um comportamento paranóico.
Ilusão. Pessoas que experimentam umas poucas vezes a "vitória" sobre o
inimigo podem adquirir uma falsa sensação de superioridade, de orgulho ou a
ilusão de terem "poder". Entretanto, a vitória pertence a Deus. Devemos nos
lembrar que a maioria dos problemas que os cristãos experimentam procedem
de suas próprias faltas, defeitos, incoerências, idiossincrasias e enfermidades
espirituais. Não estou negando que Satanás usa essas coisas para prejudicar
nossas vidas, apenas destacando que elas tem origem em nossa natureza
decaída.
Se porém permanecermos confiantes na exclusividade e na suficiência do
ensino da Escritura e permanecermos firmes no que ela nos ensina, poderemos
entrar no combate espiritual perfeitamente equipados e tendo a perspectiva
correta do que está acontecendo. Esse é um princípio fundamental que
devemos manter a todo custo quanto ao tema da batalha espiritual.
3. O homem é um ser decaído e debaixo do justo juízo de Deus
Um terceiro princípio fundamental para colocarmos o assunto de "batalha
espiritual" na perspectiva correta é lembrarmos do verdadeiro estado da
humanidade diante de Deus. Creio que na raiz de uma demonologia defeituosa
e inadequada, como a abraçada pelo moderno movimento de "batalha
espiritual", encontra-se uma visão incorreta acerca da extensão dos efeitos do
pecado na natureza humana e do estado do homem diante de Deus. Em outras
palavras, falta o conceito bíblico de que o homem é um ser decaído moral e
espiritualmente e debaixo do justo juízo divino.
Uma das grandes disputas durante a Reforma protestante versou sobre a
natureza e a extensão do pecado original. Ele afetou Adão somente, ou todo o
gênero humano? A vontade do homem decaído é ainda livre ou escravizada ao
pecado? No século V Pelágio havia debatido ferozmente com Agostinho sobre
este assunto. Agostinho mantinha que o pecado original de Adão foi herdado
por toda a humanidade e que, mesmo que o homem caído retenha a
habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e "não pode não
pecar". Por outro lado, Pelágio insistia que a queda de Adão afetara apenas a
Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele também
dá a habilidade moral para que elas possam fazer assim. Ele reivindicou mais
adiante que a graça divina era desnecessária para salvação, embora facilitasse
a obediência.
Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não
morreu. Várias formas de pelagianismo recorreram periodicamente através dos
séculos. Lutero escreveu um livro "A Escravidão da Vontade" em resposta a
BATALHA ESPIRITUAL
20
uma diatribe de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. Lutero
acreditava que Erasmo era "um inimigo de Deus e da religião Cristã" por causa
do ensino dele sobre o pecado original.(34)
Embora nem sempre houvesse total concordância entre os cristãos, o
ensino defendido por Agostinho, Calvino, Lutero, puritanos e teólogos
reformados mais modernos, representou durante muito tempo o pensamento
da maioria dos evangélicos. Atualmente, conceitos bastante similares aos de
Pelágio parece terem conseguido prevalecer entre os protestantes de maneira
geral. Mas, a teologia reformada continuando afirmando que o pecado de Adão
trouxe gravíssimas conseqüências aos seus descendentes. As duas principais
são essas, como se segue:
A corrupção da natureza humana. Com esse termo se queria indicar a
degeneração, perversão, depravação ou decadência espiritual e moral à qual a
raça humana ficou sujeita após o pecado de seus primeiros pais, Adão e Eva. O
pecado maculou a personalidade humana de tal maneira, que o homem é mais
inclinado a praticar o mal que o bem. O primeiro casal, criado puro e inocente,
após experimentar o pecado, já exibia sinais da corrupção interior: cada um
tentou justificar seu erro colocando a culpa no outro e afinal em Deus (Gn
3.10-13). Depois disso, a história de seus descendentes é uma triste história
de violência (Gn 4.8), poligamia (Gn 4.19), soberba e vingança (Gn 4.23) e
imoralidade (Gn 13.13; 18.20-21). Apesar de ainda existir algum bem nesse
mundo (e isso somente pela graça de Deus), as pessoas sempre estão
pensando em fazer coisas erradas (Gn 6.5). A descrição dada pelo salmista é
estarrecedora:
Todos se tornaram imorais e fazem coisas horríveis; não há uma só
pessoa que faça o bem... todos se desviaram do caminho certo e são
igualmente maus. Não há mais ninguém que faça o que é direito, não
há ninguém mesmo (Sl 14.1-3, BLH).
O Senhor Jesus, ao explicar de que forma o homem se torna
verdadeiramente impuro, apontou para o coração do homem como a fonte de
toda sorte de impureza moral e espiritual:
É do coração que vêm os maus pensamentos que levam ao crime, ao
adultério e às outras coisas imorais. São os maus pensamentos que
levam também a pessoa a roubar, mentir e caluniar. São essas coisas
que fazem alguém ficar impuro (Mt 15.19-20, BLH).
Semelhantemente, o apóstolo Paulo escrevendo aos Romanos, e
desejando mostrar que todos, sem exceção, são naturalmente corrompidos e
inclinados ao mal, cita em série várias passagens do Antigo Testamento como
prova da depravação total do homem:
Não há ninguém justo, ninguém que tenha juízo; não há quem adore
a Deus. Todos se desviaram do caminho certo, todos se perderam.
Não há mais ninguém que faça o bem, não há ninguém mesmo.
Mentem e enganam sem parar. Mentiras perversas saem de suas
línguas, e palavras de morte, como veneno de cobra, saem de seus
BATALHA ESPIRITUAL
21
lábios. As suas bocas estão cheias de terríveis maldições. Eles têm
pressa de ferir e de matar. Por onde passam, deixam a destruição e a
desgraça. Não conhecem o caminho da paz e não aprenderam a
temer a Deus (Rm 3.10-18, BLH).(35)
Essas passagens da Bíblia são suficientes para demonstrar o nosso ponto
(ainda outras poderiam ser acrescentadas). Basta uma consulta sincera à
nossa consciência, aliada a um exame da história humana e a uma olhada ao
nosso redor para verificarmos que a Bíblia diagnostica de forma exata a
situação da raça humana. Mesmo quem não abraça o ensino bíblico sobre a
corrupção inata ao ser humano, não pode deixar de perceber como ela macula
todas as instituições sociais. Escreveu Shakespeare:
Ah, se as propriedades, títulos e cargos. Não fossem fruto da
corrupção! e se as altas honrarias Se adquirissem só pelo mérito de
quem as detém! Quantos, então, não estariam hoje melhor do que
estão? Quantos, que comandam, não estariam entre os
comandados?(36)
Existem algumas ressalvas importantes a serem feitas para evitarmos
uma falsa compreensão desse ensinamento. Segue-se quatro delas.
A queda do homem não contradiz a presença do bem nele. Quando dizemos
que a depravação é total não estamos com isso querendo dizer que nunca
ninguém tem pensamentos bons ou faz coisas certas. "Não há depravação, por
absoluta que seja, que não traga, em seu aspecto exterior, algum traço de
virtude".(37) O termo total aponta para o fato de que o pecado penetrou em
todas as faculdades do homem e as contaminou, como pensamentos,
emoções, vontade. Também indica que essa contaminação é de tal forma que,
se deixado entregue à si mesmo, o homem seguirá naturalmente caminhos
que o desviam de Deus e o levam cada vez mais ao pecado.
A queda do homem não contradiz a presença do bem no mundo. É
preciso ressalvar que o ensino reformado da total depravação do homem não
ignora a realidade óbvia de que há pessoas nesse mundo que fazem obras de
caridade, que demonstram sentimentos de misericórdia e compaixão, e que
são capazes de sacrifícios os mais heróicos e altruístas por causas
humanitárias e nobres. Apenas atribui tais atos, não à natureza do homem em
si, mas ao que denomina de a graça comum de Deus. Com isso os reformados
designam aquelas operações graciosas e soberanas da providência de Deus,
pelo Seu Espírito, na humanidade em geral, restringindo as corrupções e as
tendências malignas dos corações e promovendo atitudes de misericórdia,
independentemente das crenças religiosas das pessoas, com o objetivo de
preservar por mais um tempo o convívio humano, a existência da sociedade e
a sobrevivência da raça humana. Dessa forma, se por um lado a humanidade é
totalmente inclinada a fazer coisas erradas, por outro, é levada (na maioria
das vezes de forma inconsciente) por Deus a realizar atos de misericórdia e
bondade, pelos quais a sua sobrevivência em sociedade é preservada. Caso
Deus deixasse de atuar assim, a humanidade já teria se destruído há muito
tempo (veja Gn 20.6; Sl 33.5; 104.13-15; Mt 5.45).
BATALHA ESPIRITUAL
22
A queda do homem não exclui sua responsabilidade. O ensino reformado
da depravação total também não exclui o reconhecimento de que as Escrituras
ensinam que o homem, mesmo nesse estado decaído, é responsável pelos
seus malfeitos. Alguns estudiosos alegam que o homem não pode ser
responsabilizado pelos seus atos pecaminosos desde que é irresistivelmente
inclinado a praticá-los. Porém, entendemos que a queda do homem de um
estado de pureza e inocência para o de depravação moral e espiritual não
anulou a sua responsabilidade diante de Deus. As Escrituras, mesmo
afirmando a depravação moral e espiritual das pessoas, avisa-as que são
responsabilizadas por Deus pelos seus atos, e que sofrem as conseqüências
dos mesmos (cf. Jz 9.56; Pv 5.22; 22.8; Jr 21.14; Rm 6.21,23; 2 Co 5.10; Gl
6.8-9). Não é difícil constatar que freqüentemente sofremos com os resultados
de decisões, palavras e atitudes erradas que tomamos. A preguiça tem trazido
pobreza a muitos. Uma vida desregrada traz doenças. A falta de domínio
próprio tem provocado reações que levam ao homicídio. A embriagues e o uso
de drogas tem trazido sofrimentos indizíveis aos seus usuários e familiares. O
amor ao dinheiro, a cobiça e a inveja têm traspassado a muitos com muitas
dores. Nas palavras do escritor Jules Romains (1885-1972), "Se nossa época,
se nossa civilização correm a uma catástrofe, isto se dá menos por cegueira,
do que por preguiça e por falta de mérito".(38)
Esse é o ponto que desejamos enfocar nessa parte do nosso ensaio:
grande parte da miséria espiritual, moral, social, individual, financeira e
estrutural que sempre aflige a humanidade é fruto, em primeiro lugar, dos
pecados que ela comete. A humanidade em geral é responsável, em grande
medida, pela sofrimento moral, espiritual e físico que suporta durante sua
existência. É verdade que há muitos e muitos casos em que pessoas sofrem
como conseqüência, não de seus erros, mas dos erros de outros — como por
exemplo, os pais que perdem um filho atropelado por um motorista bêbado, ou
os civis que sofrem durante uma guerra. Negar isso seria cruel. Mas não é esse
o nosso ponto. O que estamos querendo dizer é que, ou por nossa culpa ou
pela de outros humanos, grande parte da miséria que nos acomete tem como
raiz última esse estado de depravação e corrupção a que a desobediência dos
nossos primeiros pais nos lançou, desobediência essa na qual incorremos por
nós mesmos; pois até mesmo as catástrofes naturais — como terremotos,
ciclones, secas e dilúvios — são atribuídos na Bíblia à desordem cósmica
gerada pela queda do homem no jardim do Éden (cf. Gn 3.17-18; Rm 8.20-
22).
A condenação e o castigo de Deus. Essa é a segunda conseqüência da
queda que desejo enfatizar. A humanidade não somente vive num estado
lastimável de depravação espiritual, provocando muitas dores em si mesma —
ela está debaixo do mais severo juízo de Deus por causa do estado de rebelião
em que vive, atraindo sobre si castigos temporais impostos por Ele. As
Escrituras declaram abertamente que Deus, mesmo tendo reservado para o
futuro as penas eternas merecidas pelos pecadores impenitentes, aqui e agora
já impõe castigos temporais aos mesmos.. As Escrituras nos dão inúmeros
exemplos dos castigos temporais de Deus sobre o pecado do homem. A
BATALHA ESPIRITUAL
23
começar com os castigos impostos ao primeiro casal no Éden (Gn 3), passando
pelo dilúvio (Gênesis 6-8), a confusão das línguas (Gn 10) e a destruição de
Sodoma e Gomorra (Gn 13-17), a Bíblia nos deixa muito claro que, aqui e
agora, no presente tempo em que vivemos, Deus está executando, mesmo que
parcialmente, juízos sobre os homens pecadores. Esses juízos por vezes
tomam a forma de flagelos físicos. Deus disse por intermédio de Moisés que
castigaria os israelitas com toda sorte de misérias temporais em caso de
desobediência. O catálogo de sofrimentos em Deuteronômio 28 é
impressionante: diminuição do patrimônio (v.18), doenças contagiosas,
infecções, inflamações e febres (v. 21-22), pragas (v. 22b), secas (v. 23),
tumores, chagas, úlceras e coceiras (v. 27), cegueira (v. 28-29), fracasso
financeiro e escravidão (v. 29) — a lista é infindável (cf. o restante dela nos
vv. 30-44; ver também Levítico 26.14-46).
Não pretendo fechar os olhos ao fato de que as Escrituras ensinam que
Deus é paciente, complacente e misericordioso para com a humanidade
rebelde, e que apesar da desobediência e rebelião das pessoas, Ele
graciosamente lhes dá a vida, saúde, bens, e até longevidade. Mesmo as
pessoas mais ímpias por vezes experimentam nessa vida privilégios materiais
que excedem em muito a porção magra com que freqüentemente os justos são
agraciados. A constatação dessa realidade levou muitos santos antigos a
inquirir acerca da justiça de Deus (ver Salmo 72; o livro de Jó; o livro de
Eclesiastes). A resposta é que Deus, em sua muita misericórdia e seguindo
propósitos freqüentemente ocultos aos nossos olhos, nem sempre nesta vida
castiga o pecado imediatamente e na proporção que o mesmo merece. O juízo
e a condenação final dos ímpios é certa e Deus tem reservado a punição deles
para aquela ocasião. Aqui no presente Ele os castigue por vezes com flagelos e
aflições temporais, como prenúncios daquela condenação eterna que os
aguarda.
A idéia de que todo mal — quer sob a forma de sofrimento e misérias,
quer sob a forma de pecado — provém da atuação direta de demônios é
bastante difundida pelo movimento de batalha espiritual. Na verdade, acredito
que o conceito de que "todo mal é demoníaco" é a mais fundamental doutrina
desse movimento. A esses espíritos malignos é atribuída a responsabilidade,
não somente de doenças, desastres, fracassos, divórcios, desemprego e coisas
semelhantes, mas também de atitudes pecaminosas, como o uso de drogas, a
prostituição, o homossexualismo, o consumo de pornografia e todos distúrbios
morais de comportamento. Segundo o entendimento de muitos proponentes da
"batalha espiritual", essas entidades maléficas se instalam na vida das pessoas
(crentes e descrentes) e nas estruturas sociais, políticas e econômicas de
determinadas regiões geográficas. Resta à Igreja somente o método de expelir
essas entidades dos locais estratégicos onde se instalaram, como meio eficaz
de combatê-las e libertar as pessoas debaixo de seu controle.
O ponto que desejo frisar é que esse ensino do movimento de "batalha
espiritual" é uma perspectiva limitada e reducionista do ensino bíblico acerca
do sofrimento humano bem como uma avaliação distorcida da realidade que
nos cerca. Os diferentes sofrimentos experimentados nessa vida pelos homens
BATALHA ESPIRITUAL
24
têm como origem, muitas vezes, não somente a desobediência humana, como
também o castigo divino. Evidentemente, não sabemos ao certo dizer quando
um termina e o outro começa. E é preciso reconhecer que, em casos como o
de Jó, Satanás pode servir como instrumento dentro dos propósitos divinos.
Provavelmente os efeitos do pecado, os juízos divinos e a atuação dos
demônios estão tão interligados em alguns casos que a separação na prática é
impossível. De qualquer forma, creio ter ficado claro que o conceito defendido
pelo movimento de batalha espiritual, de que todo sofrimento, toda miséria e
todo mal circunstancial que sobrevêm às pessoas hoje, tem origem demoníaca,
não tem qualquer sustentáculo bíblico.
Não estou dizendo que os espíritos malignos não atuam na promoção da
miséria e da dor, bem como na disseminação do pecado. Negar isso seria
negar o ensino da Bíblia. Ela afirma que o diabo veio para matar, roubar e
destruir (João 10.10). Afirma também que ele é o pai da mentira (Jo 8.44).
Sabemos que Satanás se utiliza da nossa natureza depravada como
instrumento de tentação, como se fosse um aliado interno, para nos levar ao
pecado.(39) O que estou questionando é a ênfase do movimento de batalha
espiritual de que toda forma de mal (circunstancial e moral) provém
diretamente de Satanás, e que ele é, em última análise, o responsável pela
nossa escravidão a determinados pecados.
Reconheço que muitos cristãos acham extremamente difícil romper com
determinados comportamentos compulsivos que sabem ser pecaminoso, como
ver pornografia, comer em excesso, sentir autopiedade ou mentir. Estou
também pronto a admitir que Satanás procura levar as pessoas a permanecer
escravas desses hábitos e padrões pecaminosos. Questiono, porém, a idéia de
que tais crentes não conseguem se livrar porque estão debaixo do poder de
um determinado espírito maligno que os levam a pecar sempre que esses
demônios assim o desejem. Questiono essa idéia porque creio estar claro nas
Escrituras que o homem é corrompido o suficiente para atrair sobre si
sofrimentos e aflições decorrentes de seus próprios atos (sem que nenhum
demônio esteja necessariamente envolvido). A idéia de que todo
comportamento compulsivo é decorrente de demonização é um diagnóstico
inadequado e abre portas para soluções inadequadas.
A Bíblia também ensina, como vimos, que Deus é o autor de males e
sofrimentos que envia sobre os ímpios (e mesmo, sobre seus filhos, para
corrigi-los). Com isso não estou, nem por um segundo, sugerindo que Deus é o
autor do pecado, ou que seja, no mínimo, cúmplice do mesmo. Quando
começamos a ir além da Escritura, e responsabilizamos o diabo por todo o mal
que ocorre nesse mundo, corremos alguns riscos:
Perdermos de vista o ensino bíblico acerca da queda e depravação do
homem. Num artigo crítico contra os ensinos de Peter Wagner e demais
proponentes do movimento de batalha espiritual, Mike Wakely acusa a teologia
do movimento de ser pobre, descuidada e inferior, pois apresenta uma
perspectiva inadequada do ensino bíblico acerca da queda do homem. Satanás,
continua Wakely, é visto como operando primariamente através de instituições
políticas, econômicas e religiosas. Uma vez que seu poder sobre esses
BATALHA ESPIRITUAL
25
sistemas é quebrado, as pessoas prontamente se converterão a Cristo.(40)
Mas esse ensino, diz Wakely, está em completo desacordo com o ensino bíblico
de que o coração do homem é endurecido, teimoso e rebelde. Esse ensino de
Wagner e de outros tende a justificar os pecados dessas pessoas e sua recusa
em submeter-se a Cristo.(41)
Perdermos de vista o ensino bíblico acerca da responsabilidade pessoal
de cada indivíduo pelos atos que comete. Num artigo sobre como os cristãos
podem se libertar de comportamentos compulsivos — outra maneira de se
referir a prática costumeira de determinados pecados —, o autor Lester
Sumrall corretamente menciona que o diabo ilude as pessoas com conceitos
errados acerca do pecado e de Deus, para mantê-las escravizadas a
determinados hábitos pecaminosos; mas responsabiliza tais indivíduos por não
serem capazes de romper com tais hábitos: (1) muitos não desejam realmente
renunciar ao prazer que o pecado lhes traz; (2) outros são orgulhosos demais
para buscar ajuda; (3) outros se concentram em assuntos secundários em vez
de irem à raiz do problema; (4) ainda outros são inconstantes: desejam
mudar, mas não ao ponto de renunciar àqueles hábitos e sentimentos
familiares. Ele conclui dizendo que é somente através de um esforço espiritual
constante que poderemos nos libertar de padrões rotineiros de pecado.(42) O
que desejo destacar nesse artigo de Sumrall é a combinação equilibrada entre
o reconhecimento de que Satanás pode iludir as pessoas ao pecado e a
responsabilidade última que cada pessoa tem diante de Deus por se deixar
iludir e praticar a iniquidade. Infelizmente, essa última ênfase tem faltado em
muitas das publicações defendendo a "batalha espiritual". A tendência
geralmente é resolver o problema da escravidão ao pecado em termos de
expulsão de demônios supostamente responsáveis pelos mesmos, em vez do
emprego dos meios bíblicos como a disciplina espiritual,, como mencionado no
artigo de Sumrall.
Perdermos de vista o ensino bíblico de que devemos resistir ao pecado. É
importante observar que nem sempre é fácil distinguir entre os problemas
comuns da vida e ataques de espíritos malignos. A dificuldade aumenta
quando descobrimos que a Bíblia menciona que, além de Satanás, somos ainda
tentados pela carne, pelo mundo e pelas circunstâncias adversas dessa vida. O
que muitos defensores da "batalha espiritual" parecem não perceber é que a
maioria dos nossos problemas, dificuldades e sofrimentos diários se originam
da combinação entre nossa "bagagem de miséria humana básica"
(predisposições genéticas, ambiente familiar, deficiências pessoais) e nossas
tendências pecaminosas (amargura, ira, raiva, egoísmo). O mundo e o diabo
completam o quadro, interagindo entre si para criar situações de conflito, que
são por vezes tão complexas, que não conseguimos classificá-las claramente.
O que é mais interessante em tudo isso, é que as Escrituras oferecem aos
crentes uma maneira padrão de agir nessas circunstâncias, seja qual for a
origem — ou origens — do conflito: submeter-se a Deus, arrepender-se dos
pecados, e resistir ao diabo — e ele fugirá (Tg 4.7-10).(43) Entendendo a
batalha espiritual somente em termos de ataques de espíritos malignos,
muitos hoje têm negligenciado o ensino bíblico acerca da necessidade de
BATALHA ESPIRITUAL
26
santificação, disciplina espiritual e resistência moral contra as tentações —
sejam elas da carne, do mundo ou do diabo.
Portanto, é extremamente importante que mantenhamos firmes em
nossas mentes o ensino bíblico de que o homem é um ser decaído e que está
debaixo do justo juízo de Deus. É importante, não por que desejamos enfatizar
morbidamente essas tristes verdades. Mas, porque precisamos compreender
claramente a natureza das misérias e dos males que acometem as pessoas, a
responsabilidade que têm nelas, e de que forma devem reagir.
4. Se alguém está em Cristo é uma nova criação
O leitor deverá ter percebido que o título acima é na verdade uma parte
das palavras de Paulo em 2 Coríntios 5.17, "E, assim, se alguém está em
Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram
nova" (ARA). Preferi traduzir a palavra ktisis como "criação" e não como
"criatura" pelos seguintes motivos: (1) Das 19 vezes que a palavra ktisis
ocorre no Novo Testamento, a grande maioria é traduzida por "criação" (cf. Mc
10.6; 13.19; Rm 1.20; 8.19-22; Cl 1.15, entre outros), embora em alguns
casos a tradução "criatura" seja possível. (2) Algumas das traduções mais
respeitadas internacionalmente preferem também "criação" em vez de
"criatura", como a RSV e a NVI. (3) "Criação" expressa melhor o sentido do
que Paulo deseja dizer em 2 Co 5.17. Seu ponto não é a transformação
psicológica e espiritual que acontece com uma pessoa que está em Cristo
(como na tradução da BLH, "é uma nova pessoa"), mas sua participação na
nova criação que já foi iniciada por Deus em Cristo. O contraste coisas
"antigas" e "novas" não é um contraste entre o tempo antes e depois da
conversão da pessoa a Cristo, mas entre o período antes e depois da vinda de
Cristo, entre a velha era e a nova. As palavras de Paulo devem ser entendidas,
não psicologicamente, mas escatologicamente, em termos do seu ensino sobre
o raiar da nova era em Cristo, do início da nova criação em Cristo, da qual ele
é o primogênito.(44) Já tratamos acima acerca do ensino paulino sobre as
duas eras. Evidentemente esse conceito abrange o outro, de que a pessoa se
torna uma nova pessoa interiormente, mas aponta para ainda outras
características da obra de Cristo em favor da Sua igreja.
Entendido dessa perspectiva o verso está dizendo que se alguém está em
Cristo ele faz parte da nova criação, da nova humanidade cujo cabeça é Cristo,
e desfruta de todos os privilégios desse novo status. Outras passagens do
Novo Testamento nos completam o quadro: quem está em Cristo goza aqui e
agora da presença do Espírito Santo como penhor do que ainda há por vir (Ef
1.14); experimenta o gozo e os poderes do mundo vindouro (Hb 6.4-5);
compartilha da natureza de Cristo como primícia da ressurreição ainda por
ocorrer; já tem a vida eterna que significa conhecer a Deus e ao Seu Filho
Jesus Cristo (Jo 17.1-3); desfruta de um novo coração (Sl 51.10; Ez 11.19;
36.26; Jo 3.3; Gl 6.15); foi liberto do domínio do pecado e da lei (Rm 6.1-14;
7.1-6); é guiado pelo Espírito de Deus (Rm 8.1-17).
BATALHA ESPIRITUAL
27
As Escrituras enfatizam especialmente a nova relação que aquele que
está em Cristo mantém com Deus. Antigamente era filho da ira, dominado pelo
mundo, pela carne e pelo diabo e debaixo do juízo de Deus (Ef 2.1-3); agora,
foi perdoado e aceito por Deus, adotado como filho em Cristo; já nenhuma
condenação existe contra ele (Rm 8.1). Ele não mais pertence a esse mundo
que se desfaz, mas à época vindoura que já raiou no presente. Assim, Satanás
já não tem mais qualquer autoridade ou direito sobre ele, apesar de ainda
tentá-lo ao pecado. Nas palavras do apóstolo João, "o maligno não lhe toca" (1
Jo 5.18). Basta um estudo simples nas Escrituras, da linguagem usada para
descrever nossa redenção, para que não fique qualquer dúvida de que o
crente, à semelhança de um escravo exposto à venda na praça, foi comprado
por preço, e que, agora, passa a pertencer totalmente ao novo dono. O antigo
patrão não tem mais qualquer direito sobre ele, como rezava a legislação
romana da época. Assim, Paulo diz que fomos comprados por preço (1 Co
6.20; agorazo, "comprar, redimir, pagar um resgate para libertá-lo"), e que
sendo agora livres, não devemos nos deixar outra vez escravizar (1 Co 7.23).
Fomos resgatados (lutrow) pelo precioso sangue de Cristo (1 Pe 1.18; cf. Ap
5.9).
O ensino bíblico acerca da relação que o crente desfruta com Deus
precisa ser enfatizado em nossos dias, particularmente as suas implicações. A
julgar por muito do que é dito por defensores do movimento de "batalha
espiritual" quanto à atuação e ao poder dos espíritos malignos na vida dos
crentes, falta-lhes uma visão e uma compreensão mais exata quanto ao ensino
do Novo Testamento sobre o ser nova criatura, ou melhor, nova criação bem
como quanto às implicações desse ensino para a "batalha espiritual". Há pelo
menos dois ensinamentos da "batalha espiritual" que acabam por minimizar a
eficácia da obra de Cristo, que são: a demonização de crentes verdadeiros e a
necessidade de quebrar maldições.
Primeiro, vejamos o conceito de que crentes verdadeiros podem ser
demonizados. Ela tem se tornado tão popular, que muitos artigos de revistas
teológicas especializadas em aconselhamento, ao tratar das características da
demonização, não fazem qualquer distinção entre crentes e descrentes.(45)
Mas, o que é "demonização"? É importante entendermos bem o que
querem dizer quando empregam esse termo. Há quatro coisas que definem
bem esse conceito:
Demonização é diferente de possessão demoníaca. Frank Peretti, pastor
licenciado da Assembléia de Deus e autor do best seller de 1998 Esse Mundo
Tenebroso, um cristão não pode ficar possuído por um demônio, mas pode ser
"demonizado".(46) Não somente Peretti, mas muitos líderes do movimento de
"batalha espiritual" seguem a mesma distinção, como por exemplo, no Brasil,
Gilberto Pickering. Em seu livro Guerra Espiritual ele acusa os tradutores da
versão King James de terem colocado a Igreja na direção errada ao traduzir o
termo grego daimonizomai e seus cognatos por "possessão demoníaca",
tradução também adotada pela Almeida.(47) A expressão "possessão
demoníaca" e mesmo "endemoninhamento", segundo Pickering, implica na
posse por parte de Satanás da vida e do destino de uma pessoa.(48) Nesse
BATALHA ESPIRITUAL
28
caso, só há duas opções: ou alguém está possuído por um espírito maligno, ou
não está.
Demonização é um fenômeno parcial. O ponto defendido é que existem
graus diferentes em que uma pessoa — mesmo um crente — está debaixo do
controle e influência de Satanás. Daí a preferência pela tradução "demonizado"
ou "endemoninhado", pois expressa a idéia de que uma pessoa, mesmo um
crente, pode ter alguma área de sua vida debaixo do controle parcial de um ou
mais demônios, sem necessariamente estar "possesso" por eles. Powlison, em
sua crítica à "batalha espiritual", descreve este conceito fazendo um paralelo
entre a personalidade humana infestada em diversas áreas por demônios e o
disco rígido de um computador, onde determinadas áreas estão infectadas com
um ou mais vírus.(49)
Portanto, muitos defensores da "batalha espiritual" negariam que um
crente pode ficar possesso de um espírito imundo, mas afirmam que ele pode
ficar "demonizado", isto é, com alguma área de sua vida debaixo do controle
de um ou mais demônios.(50) Na verdade, vão ao ponto de dizer que não
existe "possessão demoníaca" nem mesmo de incrédulos — o que há é
"demonização".(51) Portanto, a explicação que dão para um comportamento
moral ilícito é de que os demônios do pecado estão entrincheirados no coração
humano.
A demonização ocorre por causas bem definidas. Aparentemente, eles
entendem que a "demonização" é uma influência maligna na vida de uma
pessoa, superior à daquela da tentação, em que um ou mais demônios vêm
habitar na pessoa, fazendo-a ficar confusa, incrédula, e especialmente
escravizada a determinados hábitos pecaminosos. A pessoa cai vítima desta
opressão demoníaca por causa de seus pecados, ou por causa dos pecados de
outros contra ela, como por exemplo, a molestação sexual durante a
infância.(52) A "demonização" de um crente verdadeiro pode ocorrer ainda por
vários outros motivos: o pecado de seus antepassados, ódio, amargura e
rebelião durante a infância, pecados sexuais, maldições e pragas rogadas por
outros, e envolvimento com o ocultismo.(53)
Tais coisas dão autoridade aos demônios para invadi-las. O mesmo
ocorre por causa de maldições hereditárias. Qualquer que seja a causa, os
demônios invadem a vida das pessoas e nelas habitam. No caso dos crentes,
eles permanecem em constante conflito com o Espírito Santo, que também
habita nos crentes.(54) Segundo alguns, estes demônios invasores podem ficar
habitando no corpo ou na alma do crente.(55)
Demonização e vida em pecado andam juntas. O efeito da demonização
de crentes ou descrentes, segundo Murphy, é uma vida em pecado,
geralmente nas áreas de práticas sexuais ilícitas, ódio, mágoa, rancor,
rebelião, sensação de culpa, rejeição e vergonha, atração ao ocultismo e ao
mundo dos espíritos.(56) Segundo Murphy, o processo de demonização de um
crente é geralmente o seguinte: o primeiro demônio invade a sua vida, e abre
as portas para que outros venham. Se não forem detectados e expulsos,
permanecerão lá, habitando no crente, e gradativamente ganharão controle
sobre as sua emoções, até finalmente atingirem o centro de sua personalidade.
BATALHA ESPIRITUAL
29
Crentes demonizados não poderão prosseguir sozinhos na vida cristã; precisam
de ajuda de alguém que expulse estas entidades de suas vidas.(57)
Embora o conceito de "demonização" seja uma ótima explicação para os
hábitos pecaminosos que escravizam muitos crentes, ele esbarra em algumas
dificuldades exegéticas e teológicas. Há pelo menos quatro delas que podemos
mencionar.
O problema é mais que uma questão de tradução. Mudar a tradução de
daimonizomai ("possessão demoníaca") para "demonização" não resolve o
problema levantado pela sugestão de que crentes verdadeiros podem se tornar
escravos de demônios, mesmo que seja em apenas algumas áreas morais da
sua vida. Embora o último termo traduza de forma mais literal a expressão
bíblica, o primeiro expressa melhor o seu sentido. Alguém "demonizado" está
debaixo do controle de um demônio. Existe alguma área de sua vida — ou sua
vida toda — que está possuída por aquela entidade. É este o sentido da
expressão.
Nos casos mencionados nos Evangelhos e Atos, os endemoninhados
estavam afligidos por distúrbios, quer mentais ou físicos (paralisia, cegueira,
surdez, epilepsia, loucura, cf. Mt 4.24; 8.28; 9.23; 12.22; 15.22). Seus corpos
e mentes haviam sido invadidos por demônios. A causa nunca é citada no Novo
Testamento. O efeito é que tais pessoas estavam debaixo do controle destes
seres, que não somente as afligiam, mas as haviam privado da razão, às vezes
da saúde e do controle físico.
Nos Evangelhos, as atitudes e reações das pessoas "demonizadas" são
atribuídas aos demônios que as invadiram, ver Mc 3.11; Mt 8.31; Mc 1.26; Lc
4.35; At 5.16; et al. Portanto, não é de se admirar que os tradutores, quase
que universalmente, tem traduzido o verbo daimonizomai indicando possessão
demoníaca. É que se trata da invasão de demônios na vida, no corpo, na
mente e na personalidade das pessoas, chegando ao ponto de escravizá-lo a
certos pecados e atitudes. Admitir que um crente esteja "demonizado" é
admitir que ele está debaixo do controle de Satanás, cativo à sua vontade,
impelido a estas atitudes compulsivas. E portanto, mesmo que a terminologia
foi trocada, permanece a questão se um crente pode ter demônios habitando
em seu corpo, o qual é igualmente habitado pelo Espírito Santo.(58)
O conceito agride textos claros quanto aos privilégios dos crentes. A
questão é realmente aguda, pois a Escritura ensina que o crente está
assentado com Cristo nos lugares celestiais, acima de todos os principados e
potestades (Ef 1.21-22). O crente está em Cristo, e Cristo nada tem a ver com
o maligno (Jo 14.30). E, naturalmente, o diabo não toca os que são de Cristo
(1 Jo 5.18), pois o que está no crente (o Espírito Santo) é maior que os
espíritos malignos que habitam neste mundo (1 Jo 4.4).
O pecado é atribuído à natureza decaída do homem. Os demônios
denominados pela "batalha espiritual" como sendo demônios da lascívia, do
ódio, da ira, da vingança, da embriagues, da inveja, e assim por diante, não
aparecem no Novo Testamento. Estas coisas são, na verdade, as obras da
carne mencionadas por Paulo em Gálatas 5.19-21. A solução para estes
pecados não é expulsar demônios que supostamente os produzem, mas
BATALHA ESPIRITUAL
30
arrependimento, confissão, e santificação. O conceito de "crente demonizado",
na realidade, em vez de produzir a mortificação da nossa natureza pecaminosa
como as Escrituras determinam (Cl 3.8; Rm 8.13), fornece uma desculpa e
uma racionalização para o pecado, as quais a nossa natureza pecaminosa
sempre é rápida em usar.
Falta comprovação bíblica da demonização de crentes. Além disto, falta a
necessária comprovação bíblica de que podemos e devemos expulsar demônios
da vida de crentes verdadeiros. Jesus nunca expulsou demônios de quem era
seu discípulo — Maria Madalena, de quem Jesus expulsou sete espíritos
malignos, certamente se converteu naquela ocasião (Lc 8.2). Os apóstolos,
igualmente, nunca expulsaram demônios de crentes das igrejas locais. O Novo
Testamento é absolutamente silencioso a este respeito; silencia igualmente
quanto às causas que levaram determinadas pessoas a ficarem
endemoninhadas. O Novo Testamento apenas descreve o encontro de Jesus e
dos apóstolos com pessoas endemoninhadas, mas em nenhum caso revela
como o endemoninhamento aconteceu, se foi por causa de pecados pessoais,
pelos pecados de outros, por maldições hereditárias, ou qualquer outros dos
motivos alegados pelos proponentes da "batalha espiritual". Não devemos
tentar satisfazer a nossa curiosidade baseados em especulações e experiências
pessoais.
Segundo, a quebra de maldições. Esse ensinamento característico da
"batalha espiritual" tende igualmente a minimizar a perfeição e a eficácia da
obra de Cristo na vida do crente. Podemos resumir esse conceito em quatro
pontos.
Os filhos pagam pelos erros dos pais. Os pecados, vícios, e pactos
demoníacos feitos pelos antepassados de um crente afetam negativamente a
sua existência presente. Maldições hereditárias são aquelas que herdamos dos
nossos pais e antepassados em decorrência desses erros que eles cometeram.
Este conceito procura basear-se em Êxodo 20.5, onde Deus afirma que castiga
a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.
A transmissão genética de demônios. Autores como Rodovalho chegam a
sugerir que os espíritos "familiares" passam dos pais para os filhos através dos
genes.(59) Dessa forma, eles se perpetuam na família geração após geração.
Isso explicaria porque determinadas famílias sofrem de pecados ou tragédias
características em suas linhagens. Por exemplo, famílias que através dos
séculos são marcadas por casos e mais casos de suicídios são vítimas de um
"espírito familiar" de suicídio, que entrou na linhagem por algum motivo e só
sairá com a quebra da maldição e a reparação do pecado que lhe deu a
oportunidade.
O poder abençoador e amaldiçoador das palavras. As pragas, maldições
ou palavras más proferidas diretamente contra nós no presente também têm o
poder de nos tornar infelizes, de perturbar nossas vidas. Maldições podem
incluir frases dos nossos pais como "menino, vai para o diabo que te
carregue!". Através delas, os demônios recebem autoridade para entrar em
nossas vidas e torná-las em miséria, dor e sofrimento.
BATALHA ESPIRITUAL
31
A necessidade de quebrar essas maldições. Mesmo um verdadeiro crente
pode deixar de alcançar a plena felicidade nesse mundo caso esteja
"amaldiçoado", isso é, debaixo de alguma maldição. Caso não as quebre,
padecerá nas mãos dos demônios, que recebem poder para atormentá-lo
através delas. O processo consiste em localizar e identificar estas maldições, e
anulá-las "em nome de Jesus". A "quebra" destas maldições o caminho para a
libertação.(60) No caso de maldições hereditárias, alguns aconselham que se
trace a árvore genealógica da nossa família, procurando identificar as pragas,
maldições, pecados e pactos com demônios feitos por eles no passado, para
depois anulá-los, quebrando-os e rejeitando-os em nome de Jesus.(61)
É verdade que podemos experimentar as conseqüências dos erros da
nossa família. Também é verdade que as palavras podem ser usadas para
destruir vidas. É igualmente verdadeiro que devemos rejeitar todas as obras
das trevas, cuidar das nossas palavras e não sermos coniventes com os
pecados de nossos antepassados e parentes ao nosso redor. Contudo, o ensino
de "quebra de maldições" vai muito além disso. Existem quatro críticas que
podemos fazer a ele.
Uso parcial da evidência bíblica. Geralmente o texto usado para defender
o conceito de que os filhos pagam pelos erros dos pais é Êxodo 20.5, onde
Deus ameaça visitar a maldade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta
geração dos que o aborrecem.
Entretanto, ensinar que Deus faz cair sobre os filhos as conseqüências
dos pecados dos pais, é só metade da verdade. A Escritura nos diz igualmente
que se um filho de pai idólatra e adúltero vir as obras más de seu pai, temer a
Deus, e andar em Seus caminhos, nada do que o pai fez virá cair sobre ele. A
conversão e o arrependimento individuais "quebram", na existência das
pessoas, a "maldição hereditária" (um efeito somente possível por causa da
obra de Cristo).
Este foi o ponto enfatizado pelo profeta Ezequiel em sua pregação ao
povo de Israel da época (leia cuidadosamente Ezequiel 18). A nação de Israel
havia sido levada em cativeiro para a Babilônia, e os judeus cativos se
queixavam de Deus dizendo "Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos
filhos é que se embotaram. . ." (Ez 18.2b) — ou seja, "nossos pais pecaram, e
nós é que sofremos as conseqüências". Eles estavam transferindo para seus
pais a responsabilidade pelo castigo divino que lhes sobreveio, que foi o
desterro para a terra dos caldeus. Achavam que era injusto que estivessem
pagando pelo pecado de idolatria dos seus pais. Usavam um provérbio da
época, que nos nossos dias seria mais ou menos assim: "Nossos pais comeram
a feijoada, mas nós é que tivemos a dor de barriga. . ."
Através do profeta Ezequiel, Deus os repreendeu, afirmando que a
responsabilidade moral é pessoal e individual diante dele: "A pessoa que pecar,
é ela quem morrerá — não o seu pai ou a sua mãe" (Ez 18.4b, 20). E que pela
conversão e por uma vida reta, o indivíduo está livre da "maldição" dos
pecados de seus antepassados, ver 18.14-19. Esta passagem é muito
importante, pois nos mostra de que maneira o próprio Deus interpreta (através
de Ezequiel) o significado de Êxodo 20.5. Aplicando aos nossos dias, fica
BATALHA ESPIRITUAL
32
evidente que o crente verdadeiro já rompeu com seu passado, e com as
implicações espirituais dos pecados dos seus antepassados, quando,
arrependido, veio a Cristo em fé.
Minimizaçao dos efeitos da obra de Cristo. Esse é a nossa maior
preocupação. O apóstolo Paulo nos esclarece que o escrito de dívida que nos
era contrário, a maldição da lei, foi tornado sem qualquer efeito sobre nós:
Jesus o anulou na cruz (Cl 2.13-15; Gl 3.13). Ou seja, toda e qualquer
condenação que pesava sobre nós foi removida completamente quando Cristo
pagou, de forma suficiente e eficaz, nossa culpa diante de Deus. Ora, se a obra
de Cristo no Calvário em nosso favor foi poderosa o suficiente para remover de
sobre nós a própria maldição da santa lei de Deus, quanto mais qualquer coisa
que poderia ser usada por Satanás para reivindicar direitos sobre nós, inclusive
pactos feitos com entidades malignas, por nós, ou por nossos pais, na nossa
ignorância.
Basta um estudo simples nas Escrituras, da linguagem usada para
descrever nossa redenção, para que não fique qualquer dúvida de que o
crente, à semelhança de um escravo exposto à venda na praça, foi comprado
por preço, e que, agora, passa a pertencer totalmente ao seu novo senhor. O
antigo patrão não tem mais qualquer direito sobre ele, como rezava a
legislação romana da época. Assim, Paulo diz que fomos comprados por preço
(1 Co 6.20; agorazw, comprar, redimir, pagar um resgate — termo usado para
o ato de comprar um escravo na praça, ou pagar seu resgate para libertá-lo),
e que sendo agora livres, não devemos nos deixar outra vez escravizar (1 Co
7.23). Fomos resgatados (lutrow) pelo precioso sangue de Cristo (1 Pe 1.18;
cf. Ap 5.9).
Quando vivemos à luz da gloriosa verdade de que "se alguém está em
Cristo é nova criação" não tememos pragas, maldições, encostos, mau-olhado,
"olho gordo", despachos, trabalhos. Igualmente vivemos seguros de que não
somos "amaldiçoados" por qualquer dos pecados de nossos pais: tudo foi
anulado na cruz. Não estou dizendo que os verdadeiros cristãos gozam de uma
imunidade automática quanto à influência de espíritos malignos. É preciso
revestir-se da força do Senhor e de toda armadura de Deus para que possam
resistir às astutas ciladas do diabo.(62) Meu objetivo foi deixar clara a
importância de abraçarmos o ensino correto sobre a situação daquele que está
em Cristo. Saber o que isso significa nos dará o parâmetros corretos para
avaliarmos os freqüentes relatos de experiências estranhas que ouvimos de
evangélicos ao nosso redor, que parecem minimizar ou diminuir a suficiência
da obra de Cristo em favor dos que são seus.
Conclusão
Meu alvo nesse artigo foi abordar alguns dos principais ensinos do
movimento de "batalha espiritual" partindo do contexto doutrinário maior onde
o mesmo se encaixa. Analisando os temas maiores que controlam a área de
BATALHA ESPIRITUAL
33
demonologia bíblica procurei mostrar que muitas das distorções apresentadas
pela demonologia do movimento se devem ao fato que ele enfoca
determinados ensinos fora dos contextos a que pertencem. Quando analisamos
a atuação demoníaca da perspectiva do ensino bíblico sobre a soberania de
Deus, a suficiência das Escrituras, a queda do homem e a plena redenção em
Cristo, verificamos que "batalha espiritual" não pode se tornar a porta de
entrada ou o tema dominante de uma teologia ou de uma estratégia
missionária adequados para a Igreja de Cristo. Seria reduzir e distorcer o
ensino mais completo das Escrituras.
Embora reconheçamos que existe um conflito se desenrolando no
presente entre a Igreja e as hostes das trevas, temos dúvidas de que o mesmo
deva ser o ponto focal da reflexão e da praxis da igreja de Cristo em nossos
dias, visto que está subordinado a muitos outros pontos mais abrangentes e
fundamentais.
A Igreja deve guiar-se pelos pontos mais centrais do ensinamento
bíblico. Através deles colocará na perspectiva correta qualquer novo assunto
que surja. Nesse capítulo enumerei quatro desses pontos que controlam, ao
meu ver, a compreensão adequada dos ensinamentos da "batalha espiritual: a
soberania de Deus, a suficiência das Escrituras, a decadência da raça humana
e a suficiência da obra de Cristo. Uma vez que esses pontos sejam firmemente
defendidos e ensinados haverá pouco espaço para que os erros da "batalha
espiritual" penetrem.
BATALHA ESPIRITUAL
34
Notas
1 Por exemplo, veja-se o livro de Paulo Romeiro, da Assembléia de Deus,
Evangélicos em Crise: Decadência Doutrinária na Igreja Brasileira (São Paulo:
Mundo Cristão, 1995), onde ele faz severas críticas ao movimento.
2 Veja extratos desta declaração em Mike Wakely, "A critical look at a new
‘key’ to evangelization", em Evangelical Missions Quarterly, (Abril, 1995) 156-
57.
3 Boa parte do material aqui apresentado apareceu na minha obra, O que Você
Precisa Saber sobre Batalha Espiritual (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana,
1997), e é reproduzido aqui com permissão.
4 I. H. Marshall, Atos: Introdução e Comentário, em Série Cultura Bíblica (São
Paulo, Vida Nova: 1985).
5 Cf. por exemplo, G. Van Groningen, O. Palmer Robertson, e outros.
6 Institutas, III, 7, 1. O reconhecimento da soberania de Deus era uma das
principais características da doutrina de Calvino, cf. Ken Myers, "Calvin and
culture", em Tabletalk, 19/10 (1995) 58-59.
7 Ross W.Marrs, "God's nest egg", em Clergy Journal, Maio/Junho de 1989, pp.
30-34. Outros autores falam de Deus como soberano, mas não no sentido de
pleno domínio sobre suas criaturas morais. Cf. por exemplo Quetin Schultze,
"Culture watch: the crossover music question", em Moody, Out. 1992, pp. 30-
32; Spiros Zodhiates, "Signs — why God gives them or refuses them", em
Pulpit Helps, Maio de 1990, pp. 1-5.
8 Clark Pinnock, "God's sovereignty in today's world", em Theology Today,
53/1 (1996) 15-21.
9 J. Long, em Discipleship Journal, Março/Abril de 1992.
10 Para maiores detalhes sobre esta abordagem histórica, redentivaescatológica
dos ensinos do Novo Testamento, veja George Ladd, Teologia do
Novo Testamento, 2a. edição (Rio: JUERP, 1985) 24-32; Herman Ridderbos,
Paulus: Ontwerp van zijn theologie (Kampen: Uitgeversmaatschappij, 1966)
40-55; The Coming of the Kingdom (Filadélfia, PA: Presbyterian and Reformed
Publishing Co., 1976) 104-115; Geerhardus Vos, Redemptive History and
Biblical Interpretation (Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian and Reformed
Publishing Co., 1980).
11 Guelich, Spiritual Warfare, 39.
12 Ver o excelente livro de F. Solano Portela Neto, "Cinco Pecados que
Ameaçam os Calvinistas" (São Paulo, PES, 1997).
13 Jay Adams, "Counseling and the sovereignty of God", em Journal of Biblical
Counseling, Inverno de 1993, pp. 4-9.
14 John Piper, "Charles Spurgeon: preaching through adversity", em Founders
Journal, 23 (1996) pp. 5-21.
15 Cf. por exemplo Merrill Unger, Biblical Demonoly, entre outros.
BATALHA ESPIRITUAL
35
16 Exemplos de obras assim são aquelas de Thomas Brooks (Precious
Remedies Against Satan´s Devices), John Bunyan (O Peregrino) e William
Gurnall (The Christian in Complete Armour).
17 Neuza Itioka, "A Igreja e a Batalha Espiritual: Você Está em Guerra!" em
Série Batalha Espiritual (São Paulo: Editora SEPAL, 1994) 29-30; 61-64.
18 Ibid., 30, 52-53; 67-69; 49.
19 C. Peter Wagner, "Territorial Spirits and World Missions", em Evangelical
Missions Quarterly 25 (1989).
20 Ibid., 278.
21 Ibid., 279.
22 Ibid., 278.
23 Ibid., 282-284.
24 Wakely, "A critical look", 158.
25 Ibid., 159.
26 Wagner, "Territorial Spirits"., 284.
27 Veja por exemplo Samuel Southard e Donna Southard, "Demonizing and
mental illness (III): explanations and treatment, Seoul", em Pastoral
Psychology, (Inverno de 1986) pp. 132-151; T. Craig Isaacs, "The possessive
states disorder: the diagnosis of demonic possession", em Pastoral Psychology,
(Verão de 1987) pp. 263-273.
28 Christopher Rosik, "Multiple personality disorder: an introduction for
pastoral counselors", em Journal of Pastoral Care, (Outono de 1992) pp. 291-
298
29 Cf. Isaacs, "The possessive states", 263-73.
30 Rosik, "Multiple personality", 291-298.
31 Gary Greenwald, "The dangerous transference of spirits", em Charisma &
Christian Life, (Outubro de 1990) pp. 110-120.
32 Entretanto, o conceito de transferência (sem entrar no mérito de que
espírito) ocorre em várias passagens bíblicas; Nm 11.17; 2 Re 2.9,15; 15.27;
1 Co 2.12., o que exigirá uma atenção do leitor na interpretação dessas
passagens.
33 Thomas White, "Establishing your home as a spiritual refuge", em
Equipping the Saints, (Inverno de 1993) pp. 14-16.
34 É bom notar que o Catolicismo medieval, sob a influência de Aquino,
adotara um semi-pelagianismo, mesmo que na antigüidade houvesse rejeitado
o pelagianismo puro. Neste sistema, acreditava-se que o homem cooperava
com a graça de Deus para a salvação.
35 É interessante que Paulo escreveu essas palavras aos cristãos de Roma,
cidade conhecida pela degradação moral já em sua época. Deste mesmo
período são as palavras Romae omnia venalia esse ("Em Roma tudo está à
venda"), usadas por jovens aristocratas romanos na tentativa de descrever a
Jugurta, jovem príncipe númida, a corrupção reinante em sua pátria.
36 Shakespeare, O Mercador de Veneza, Ato II (palavras de Aragão).
37 Ibid. (palavras de Bassânio).
38 Jules Romains, Ascensão dos Perigos.
BATALHA ESPIRITUAL
36
39 Cf. Curtis C. Mitchell, "Tactics against Temptations", em Moody (Junho de
1989) 30-35.
40 Veja a resenha de Magnus Fialho do livro Espíritos Territoriais editado por
Peter Wagner, em Fides Reformata 1/2 (1996) p. 133ss.
41 Wakely, "A Critical look", 160ss.
42 Lester Sumrall, "Breaking compulsive behavior", em Carisma & Christian
Life (Outubro de 1990) 68-72.
43 Veja esse ponto em detalhes em Tom White, "Is this really warfare?" em
Discipleship Journal, 81 (Maio/Junho de 1994) 32-37.
44 Veja a excelente exposição dessa passagem por Herman Ridderbos em
Paulus (1966).
45 Isso não quer dizer que os autores não reconheçam que há uma distinção,
mas sim que, em termos práticos de aconselhamento, a filiação religiosa do
paciente não faz diferença, cf. T. Carig Isaacs, "The possessive states disorder:
the diagnosis of demon possession"; Christopher Rosik, "Multiple personality
disorder".
46 Veja a resenha desse livro feita por Dan O’Neil, "The supernatural world of
Frank Peretti" em Charisma & Christian Life (Maio de 1989) 48-52.
47 Gilberto Pickering, Guerra Espiritual:Estratégias Missionárias de Cristo (Rio
de Janeiro: CPAD, 1987) 116.
48 Ibid., 116-7.
49 Powlison, Power Encounters, 30.
50 Cf. Murphy, Handbook, 50-51; Cabezas, Desmascarado, 216-19.
51 Murphy, Handbook, 51.
52 Murphy defende veementemente este ponto, cf. Ibid., 449-462.
53 Ibid., 437-48. Cf. Itioka, "A Igreja e a Batalha Espiritual", 61-63.
54 Murphy, Handbook, 429-3050 .
55 Itioka, "A Igreja e a Batalha Espiritual", 65.
56 Murphy, Handbook, 433-44.
57 Ibid., 434.
58 Pickering, na tentativa de evitar o problema criado pela palavra do apóstolo
João que o diabo não toca o que é nascido de Deus (1 Jo 5.18), chega ao
ponto de dizer que esta passagem se refere apenas à nova natureza dentro do
crente, enquanto que a velha natureza é sujeita à invasões demoníacas! (cf.
Guerra Espiritual, 118-20) É um exemplo claro de uma exegese a serviço de
conceitos teológicos pré-concebidos.
59 O uso do termo "espírito familiar" para se referir a demônios que seguem
famílias se baseia numa interpretação grosseira da tradução da King James.
60 Um dos livros que mais tem servido para difundir estas idéias no Brasil é o
da pentecostal Marilyn Hickey traduzido no Brasil com o título Quebre a Cadeia
da Maldição Hereditária (Adhonep, 1988). Representantes brasileiros seriam,
por exemplo, Valnice Milhomens, Robson Rodovalho (Quebrando as Maldições
Hereditárias, [Brasília: Koinonia, 1992] 5a. edição, 1995), Jorge Linhares
(Bênção e Maldição, [Belo Horizonte, MG: Betânia, 1991] 2a. edição, 1992),
entre outros.
61 Esse é o tema do livro de Rodovalho, Quebrando as Maldições Hereditárias.
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62 Cf. Clinton Arnold, "Giving the devil his due", em Christianity Today (Agosto
de 1990) 16-19.
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